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A crise do humanismo histórico e o novo humanismo |
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por Salvatore Puledda Agradeço à Universidade "La Sapienza" e ao Fórum dos estudantes humanistas que organizaram este seminário por me terem dado a oportunidade de falar sobre a crise do humanismo tradicional e sobre as novas tendências nos últimos anos que parecem configurar uma nova idéia de Humanismo. Trata-se, como todos sabemos, de um tema muito vasto que, além disso, não se presta a generalizações fáceis. Por isso e pelo pouco tempo à minha disposição, limitar-me-ei a apresentar algumas idéias que, seguramente, terão necessidade de maior desenvolvimento e de uma linguagem mais rigorosa mas que pode ilustrar, em um primeiro nível, a problemática do Humanismo no mundo atual. Começo dizendo que, atualmente, o conceito de Humanismo é um dos mais
contraditórios e ambigüos. Seu significado aparece hoje perdido, como em uma
Torre de Babel, entre a confusão das linguagens e das interpretações pelo que,
antes de mais nada, ser reconstruído e esclarecido em suas diversas
manifestações históricas ou, pelo menos, naquelas mais importantes. Mas devemos
esclarecer que o interesse de uma pesquisa deste tipo não pode ficar restrito
nos limites de um discurso acadêmico ou especializado, como se se tratasse de
dar solução a uma curiosidade histórica. Isso porque cada "humanismo" comporta,
de modo mais ou menos explícito, uma definição ou uma imagem da "natureza" ou da
"essência" humana. Cada humanismo afirma coisas que se liga a temas próximos
tais como os seres humanos "são" ou "devem ser". Em outros termos: cada
humanismo contém um aspecto "normativo", ou um "projeto" que se trata de levar à
prática. Se analisamos um pouco mais a fundo este tema, veremos que todos nós
temos uma imagem, que pode ser mais ou menos clara, mais ou menos coerente, ou
talvez tácita ou confusa, daquilo que o ser humano é ou deve ser e é sobre a
base de tal imagem que tratamos de levar adiante ou justificamos certos
comportamentos ou então tratamos de evitar outros. É também evidente que tais
imagens não são individuais, pessoais, e provêem, por assim dizer, do
"substrato" cultural em que cada um de nós foi formado. Daí a relevância de um
discurso esclarecedor do conceito de "humanismo".
Vamos às diversas interpretações do humanismo e às diversas "imagens" de ser
humano já propostas. O primeiro humanismo a se tomar em consideração é o
humanismo por antonomásia, o renascentista. Certamente, todos sabemos que o
Renascimento é um fenômeno cultural extremamente amplo e articulado, que
apresenta aspectos muito diversos, às vezes fortemente contraditórios. Contudo,
no que se refere á imagem do ser humano há alguns traços característicos, por
assim dizer, que aparecem no começo da época renascentista e que permanecem ao
longo de seu desenvolvimento. Eu os resumiria assim:
Neste século se torna a falar, cada vez com maior freqüência, de "humanismo"
e este termo adquire novos significados. Assim, importantes correntes
filosóficas se definem como humanistas, assim se fala de um humanismo marxista,
cristão e existencialista. Mas essas tendências do pensamento, testemunhando um
novo interesse pelo humanismo, dão interpretações radicalmente diferentes dele.
Por conseqüência, em nosso século não nos encontramos na presença de um
movimento humanista homogêneo, complexo e articulado, como no Renascimento, mas
em presença de um conflito entre diversos humanistos já que as três correntes
mencionadas entendem de maneira diferente a essência humana. Para Marx, por um
lado o ser humano é um ser natural como o entendia Feuerbach, por outro lado
possui uma especificidade que o identifica como "humano", isto é, como
fundamentalmente diferente de todos os outros seres naturais e esta
característica é a sociabilidade, a capacidade de formar uma sociedade. É na
sociedade que o homem, por meio do trabalho com outros homens, assegura a
satisfação de suas necessidades naturais (a alimentação, a habitação, o
vestuário, a reprodução, etc.) e transforma a natureza fazendo-a cada vez mais
próxima de si mesmo, cada vez mais huma. O homem, para Marx, cessa de ser humano
quando sua sociabilidade natural é negada como ocorre na sociedade capitalista,
em que seu trabalho que é um fato social, é subtraído por uma minoria. No
humanismo cristão, o teocêntrico, assim como o desenvolveu seu ideólogo
Maritain, na primeira parte deste século, a humanidade do homem é considerada e
definida a partir do ponto de vista de seus limites em relação de Deus. O homem
é humano porque é filho de Deus, porque está imerso na história cristã da
salvação. No humanismo existencialista, como Sartre o formulou em 1946, o homem
não tem uma essência determinada, o homem é fundamentalmente uma existência
lançada ao mundo que se constrói através da eleição (escolha). A característica
fundamental que o faz "humano" é a liberdade de escolher e de escolher-se, de
projetar e de se fazer. O homem cessa de ser "humano" quando recusa esta
liberdade e adota comportamentos que Sarte chama de "má fë", isto é: se curva a
comportamentos aceitos e codificados, à rotina dos papéis e das hierarquias
sociais. Como bem sabeis, estas diversas interpretações do ser humano não
ficaram circunscritas ao meio filosófico mas foram lançadas à arena política
graças à criação de partidos que lutaram pela conquista do poder. Deste modo, a
formulação do humanismo cristão se enquadra no movimento geral de abertura da
Igreja católica no mundo moderno, iniciado já no século passado, e seu intenção
era a de constituir o fundamento ideológico dos partidos de inspiração cristã
que contiveram o poder dos partidos marxistas e liberais. A própria tentativa de
Sartre de qualificar seu existencialismo como um humanismo vai na direção de
abrir na França uma terceira via entre os partidos marxistas e cristãos. Nesta
confusão, neste conflito de imagens contrastantes, neste século a palavra
"humanismo" foi se esvaziando de significado e terminou por indicar uma
preocupação genérica pela vida humana, exposta a problemas de todo tipo e mesmo
ao perigo de uma catástrofe global.
Esta situação foi lucidamente analisada por Heidegger no fim dos anos '40 em
uma famosa carta chamada "Carta sobre o Humanismo" enviada a um filósofo francês
que lhe perguntava como tornar a dar significado à palavra "humanismo" entre
tantas e diversas interpretações. Heidegger examina com grande acuidade e
profundidade os diversos humanismo históricos e encontra aí um pressuposto
tácito comum, que lé o seguinte: todos os humanismo antigos e modernos
concordam, mesmo que este ponto não seja suficientemente detalhado, que o ser
humano responde à antiga definição de Aristóteles, isso é, a do homem como
"animal racional". Em primeiro lugar, ninguém duvida da primeira parte da
definição: do "animal", enquanto que a de "racional" toma o caráter das diversas
filosofias como intelecto, alma, individualidade, espírito, pessoa, etc..
Certamente, diz Heidegger, deste modo se afirma qualquer verdade sobre o ser
humano mas sua essência é pensada de modo muito estreito. A essência humana é
pensada a partir da "animalitas" e não a partir da "humanitas", pelo que o homem
fica reduzido a um fenômeno natural, a um ser qualquer e, finalmente, a uma
coisa, esquecendo-se que fundamentalmente o homem é um "quem" que propõe a
pergunta sobre o ser dos entes e sobre sua própria essência. Este é um dos
aspectos fundamentais do pensamento de Heidegger e constitui também um ponto
central em qualquer discurso sobre o humanismo pelo qual é necessário dar alguma
explicação um pouco mais profunda. Isso é o que levará a enfocar outra imagem do
ser humano que é atualmente predominante, aquela segundo a qual o ser humano é
uma "máquina biológica", imagem proposta na ciência, ou melhor, nas
interpretações da ciência em nome do positivismo ou neo-positivismo.
Heidegger diz: os homens, em sua vida quotidiana, ou na prática científica,
se perguntam que coisa é um ente, por exemplo uma pedra, uma planta, um átomo e
respondem dizendo: o ente é isto, ou aquilo outro. Por exemplo, uma pedra é um
material sólido, etc. Brevemente se responde pondo certos predicados, certas
determinações sob a palavra "é", que explicam que coisa é o ente. Discute-se se
uma coisa é isto ou aquilo, mas nunca se interroga sobre a palavra "é". A
clarificação do ser que está na base da compreensão do entre, fica totalmente
esquecida. Mas não apenas isto: o homem é estudado e compreendido, seja nas
ciências humanas como nas biológicas, como um ente, um objeto, um fenômeno
natural qualquer, esquecendo-se de que é o ser humano que põe em questão os
entes, que pergunta "que coisa é" ou "que coisa ou quem é". Em resumo, para
Heidegger, entre os objetos do mundo (os entes) e o ser humano existe uma
diferença fundamental, uma diferença ontológica que a visão moderna do ser
humano tende a reduzir cada vez mais.
Vimos como os humanismo tradicionais haviam considerado o ser humano a partir
de sua animalidade, isto é, como um fenômeno zoológico com "algo a mais". Na era
da técnica, isto é, na era atual, aquele "algo a mais" tende a desaparecer e o
ser humano adquire definitivamente as características de uma "coisa". Enquanto
coisa, em sentido técnico, seu aspecto fundamental é o da utilização. Os homens
são agora "máquinas biológicas" ou termodinâmicas, isto é, força de trabalho,
produtores, consumidores, etc. Neste fenômeno global de "coisificação" não há
possibilidade alguma de fundamentar valores, senão aqueles referidos à
utilidade. O ser humano, como o mundo em geral, perde "sentido" e existe, de um
modo opaco, quotidiano, banal...mas o sentido, o significado de sua existência
desaparece. Para Heidegger nisto se enraiza o niilismo e a imensa destrutividade
da sociedade tecnológica.
A imagem do ser humano como "máquina biológica" é a atualmente dominante no
Ocidente e essa imagem está alcançando ou talvez já tenha alcançado o nível
pré-lógico, o substrato sobre o qual se constróem e se articulam os discursos,
substrato que não se observa nem se estuda: é o mundo dos fatos sobre os quais
se está de acordo a priori e não se discute, é o mundo da verdade social
inconsciente, como diria Foucault.
Contudo a ação desta imagem produz uma série de problemas, alguns deles
graves. Consideremos um, relativo ao campo da ecologia que todos consideramos
crucial neste momento. As correntes ambientalistas atuais encontram na
coisificação da natureza, em sua transformação em um puro objeto econômico, a
raiz dos enormes problemas ecológicos que ameaçam o planeta a uma catástrofe. A
maioria destas correntes ambientalistas não vacilam em se colocar no interior de
uma visão puramente naturalista do ser humano: para elas o ser humano é
simplesmente uma máquina biológica submetida à evolução natural, máquina que
neste momento está funcionando mal, não se sabe se por razões genéticas, por uma
espécie de defeito intrínseco, ou por uma série de fatores extrínsecos,
ambientais.
Tendo eliminado, nesta visão estreitamente naturalista, toda liberdade e
intencionalidade do ser humano, não sobra nenhuma explicação deste defeito de
funcionamento salvo a férrea necessidade das leis da natureza. Daí uma espécie
de desesperação muda e a visão negativa e trágica do ser humano que se torna o
animal "mau" que destrói todas as outras formas de vida. Paradoxalmente o mundo
animal, nesta visão, termina por assumir as características de bondade natural
que em seu tempo Rousseau havia atribuído ao homem. Assim chega a adquirir
aqueles aspectos psíquicos, intencionais dos quais o ser humano foi despojado:
sobrevem uma espécie de Disneylândia em que a ferocidade, a agressividade, a
violência intrínseca à dimensão animal, o comer e ser comido, fica atenuada até
quase desaparecer, porque de qualquer modo a vida se mantém em equilíbrio e é
preservada. Nesta visão paradoxal, o ser humano se torna um fator
desequilibrante e perigoso pelo que sua eventual desaparição não seria
necessariamente negativa.
Outro caso interessante se refere a essas correntes políticas que fundam suas
próprias raízes na tradição marxista ou, em geral, na "esquerda" e que se opõem
ao neoliberalismo em economia, denunciando a desumanidade em nome de valores
humanos superiores de igualdade e solidariedade. Mas em uma visão estreitamente
materialista do ser humano, que pretende ser científica, como é possível fundar
valores que são, por definição, acientíficos? Como pode uma máquina biológica,
que responde a leis mecânicas, construir valores? E então, por que tanta
história contra o mercado que o neoliberalismo apresenta como o mecanismo de
seleção natural da atividade econômica? Por que tanta história contra as leis
"científicas" do mercado, se nesta visão o ser humano é uma máquina biológica
submetida à seleção natural promovida pelo ambiente? O neoliberalismo que se
baseia em uma espécie de darwinismo social, apesar de sua tacanhez, é bastante
mais coerente que as posturas de "esquerda" das quais falamos.
Digo tudo isso, não para dar lições à "esquerda" (que por sinal é um conceito
bastante vago e confuso), mas para mostrar que uma posição coerente nestes dois
campos: o ecológico e o econômico, que se oponha à destruição da natureza e da
humanidade ao mesmo tempo que se opõe ao neoliberalismo, para poder ir em frente
deve abandonar sua concepção naturalista do ser humano, deve se descartar da
concepção da "máquina biológica" e do "animal racional" e elaborar uma nova
imagem.
Mas nos últimos anos, isto é, a partir dos anos '80, apareceram novos
movimentos quer seja no campo político quer no filosófico e no campo da ciência
física, que colocam em primeiro plano o ser humano, que reivindicam para ele uma
posição central e especial no mundo natural e anunciam uma nova concepção do
humanismo.
No campo político me parece que a Perestroika levada adiante pelo grupo
dirigente soviético constitui um fato extraordinário que, visto de fora, é quase
"milagroso". O Dr. Zagladin falou dos resultados positivos, das dificuldades e
das falhas da Perestroika. Mas o fim da corrida armamentista nuclear, o
distanciamento da catástrofe nuclear constitui uma pedra fundacional na história
do mundo moderno, um fato pelo qual, e o digo sem retórica, a humanidade inteira
deveria estar agradecida ao grupo dirigente soviético daqueles anos, orientado
pelo presidente Gorbachov.
No campo filosófico, a novidade está constituída pelo Novo Humanismo de Silo.
Silo reformula o conceito de humanismo e o coloca em uma perspectiva histórica
globalizante, em sintonia com a época atual que vê surgir, pela primeira vez na
história humana, uma sociedade planetária. Silo afirma que o humanismo que
aparece com força na Europa na época do Renascimento, reivindicando para o ser
humano dignidade e centralidade contra a desvalorização vigente na Idade Média
cristã, já estava presente em outras culturas, no Islão, por exemplo, ou na
Índia ou na China.
Certamente era chamada de outro modo, dado que outros eram os parâmetros
culturais de referência, mas não menos era implícito sob a forma de "atitude" e
de "perspectiva frente à vida". Na concepção de Silo, o humanismo não vem a ser
agora um fenômeno cultural e geograficamente delimitado, um fato europeu, mas
que nasceu e se desenvolveu em diversas partes do mundo e em diversas épocas. É
precisamente isto que pode imprimir uma direção convergente às diferentes
culturas que (em um planeta unificado pelos meios de comunicação de massas)
estão forçadas conflitivamente a entrar em contato entre si.
Silo coloca o ser humano na dimensão da liberdade. Para ele, que nisto se
atém à tradição fenomenológica, a consciência humana não é um reflexo passivo ou
deformado do mundo natural, mas fundamentalmente atividade intencional,
atividade incessante de interpretações e reconstruções do mundo natural e
social. O ser humano embora participe do mundo natural na medida em que possui
um corpo, não é redutível a simples fenômeno natural, não tem uma natureza, uma
essência definida, mas é um "projeto" de transformação do mundo natural e de si
mesmo.
O projeto humano coletivo é, para Silo, a humanização da Terra. Isto é, a
eliminação da dor física e do sofrimento mental e, portanto, a eliminação de
todas as formas de violência e de discriminação que privam os seres humanos de
sua intencionalidade e liberdade reduzindo-os a coisas, a objetos naturais, a
instrumentos da intencionalidade de outros.
Mas qual pode ser, em uma planeta forçosamente unificado, no qual se
contrapõem visões do mundo diferentes, finalidades e valores contrastantes, um
denominador comum para a convergência entre os povos, as culturas e as
religiões? Como produzir uma aproximação à criação de uma nação humana
universal? Para Silo isto é possível ao se descobrir no desenvolvimento de cada
cultura seus próprios "momentos" históricos humanistas nos quais suas melhores
produções e ações tenham se relacionado com os seguintes parâmetros:
O humanismo definido a partir desta atitude e a partir desta perspectiva de
vida pessoal e coletiva, não é patrimônio de uma cultura específica mas de todas
as culturas. Neste sentido, apresenta-se como um humanismo universal. |