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Danilo Santos Dornas
O texto Espanha Invertebrada foi escrito em 1921 pelo filósofo espanhol
José Ortega y Gasset (1883-1955) e editado por quatro vezes pela Alianza.
É uma obra apresentada em duas partes. A primeira parte intitula-se Particularismo
y Acción Directa e a segunda parte intitula-se La Ausência de Los
Mejores. No prólogo, Ortega adianta que o objetivo principal desta obra
é definir a enfermidade da Espanha, bem como a dissolução
da sociedade espanhola. No entanto, ao verificar os motivos desta fragmentação
o filósofo observou que se tratava de uma crise comum do continente europeu.
O filósofo explica que não há na Espanha uma vértebra
capaz de unir os homens num projeto comum.
O primeiro ensaio do livro dedica-se à análise de Ortega sobre
os aspectos históricos de uma nação como um vasto sistema
de incorporação. Para explicar esse conceito, o autor utiliza
o exemplo do povo romano cuja sociedade foi claro o surgimento, o apogeu e o
seu declínio. O povo romano obteve êxito em sua civilização
porque não preocupava em incorporar um outro povo pela expansão
de um núcleo central, mas por adaptar-se às diferentes culturas
que entrou em contato. Da mesma forma, o filósofo indica que é
um erro supor que o nascimento da política deve-se à expansão
da família conforme explicam algumas teorias sociológicas. O processo
de incorporação não significa dilatação de
um núcleo, mas a organização de muitas unidades sociais
preexistentes numa nova estrutura.
Para incorporar os diversos povos, a sociedade romana, teve que exercer a tarefa
do saber mandar. Essa tarefa consiste em nacionalizar um povo, pois essa tarefa
reúne a habilidade de convencer e de obrigar os seus cidadãos
a assumirem um projeto comum. E essas foram as duas habilidades da sociedade
romana que a tornou uma potente civilização. Ortega explica que
nesse esforço de incorporação o poderio militar aparece
em uma posição secundária, pois não é pela
força que um povo sente em sua vitalidade um projeto comum, mas pela
necessidade em ter um projeto. O filósofo considera a necessidade como
fundamento de um projeto que impulsiona a saída de uma vida contemplativa
para uma vida ativa. Nos parece ser um dos aspectos de sua filosofia raciovitalista
considerando que o homem deve agir seguindo seus projetos e sua vocação.
Num ensaio posterior, intitulado Tanto Monta, Ortega refuta a fórmula
que sugere a unidade como a causa e a condição para fazer grandes
coisas. Porém, sua refutação inverte a ordem desta fórmula
que diz: “A idéia de grandes coisas pode fazer a unificação
nacional” (p. 84). E o sintoma mais grave identificado pelo filósofo
é que falta ao povo espanhol essa idéia de grandes coisas a fazer.
Por isso, o título do livro España Invertebrada, ou seja, não
há na Espanha uma vértebra, um sentido que seria vital para a
consolidar a nação.
O primeiro inimigo fundamental que interrompe a consolidação da
nação espanhola é o particularismo. Para Ortega, particularismo
significa a desintegração na qual as partes do todo passam a viver
como todos à parte. A essência do particularismo significa que
cada grupo deixa de sentir-se como parte, e em conseqüência deixa
de compartilhar os sentimentos dos demais. O filósofo compreende que
para combater o particularismo, a sociedade espanhola deveria manter viva em
cada classe ou profissão a consciência de que existem em torno
deles muitas classes ou profissões cujas cooperações necessitam
serem respeitadas, ou até mesmo, conhecidas.
O particularismo apresenta-se sempre como uma classe que produz a ilusão
intelectual de crer que as demais classes não existem. Para Ortega, uma
nação é uma comunidade de indivíduos e grupo que
contam uns com os outros. Mesmo numa ação de discordância
com outrem verificamos sua importância para nós. Entretanto, o
particularismo introduz na política homens poucos virtuosos que mandam
seguindo suas vontades. A essa atitude, o filósofo chama de ação
direta. Por ação direta entende-se a imposição de
um grupo sobre o outro quanto à sua vontade, desejo e interesse. Ao empregar
a ação direta o grupo dominador considera que as demais classes
não possuem o direito de existirem, passam a considerá-las como
parasitas, isto é, anti-sociais. A ação direta é
uma tática que se deriva do particularismo, ou seja, do não querer
contar com os demais.
Na segunda parte da obra, Ortega explica que o particularismo e a ação
direta existem porque na Espanha não há homens capazes de evitá-los.
Existe na Espanha a massa humana que é uma realidade histórica
européia e donde nascem os problemas políticos. As massas são
um caso extremo da “invertebración” espanhola. Nas palavras
de Ortega:
Essa miopia consiste em crer que os fenômenos sociais, históricos,
são fenômenos políticos, e que as enfermidades de um corpo
nacional são enfermidades políticas. Agora bem: o político
é certamente a escapatória, o contorno do social. Por isso é
o que nos salta primeiro à vista (p. 93-94).
Isso significa que o filósofo entende que quando o problema é
só a política não significa que a nação esteja
muito mal. Porém, quando o problema é a sociedade míope
o problema é mais extremo. Quanto à Espanha, sua enfermidade pública
é bem mais grave que qualquer moralidade pública. A enfermidade
da Espanha é o império das massas. Eis o que Ortega nos diz sobre
este império:
Eu me refiro uma forma de domínio muito mais radical, mais profunda,
difusa, onipresente e não de uma só massa social, e sim de todas
(p. 95).
O problema da Espanha está na raiz de sua sociedade. No entanto, não
pode construir numa sociedade um ideal ético. Para Ortega este foi o
desespero do século XVIII. Só deve-ser o que pode-ser e só
pode-ser o que move dentro das condições do que é. Para
Ortega, o erro da idade moderna foi supor que o homem pode construir um ideal
moral pela consciência. Nesteࠠponto, Ortega combate o idealismo com o
seu raciovitalismo explicando que o homem é sua ação e
seu vࡩgor. O Raciovitalismo compreende o homem como um ser histórico
e por isso sempre se empenha em construir e realizar seu projeto vital.
O princípio para a convivência do povo espanhol é a docilidade.
A docilidade deve supor a obediência. A docilidade tem a vantagem não
só de elucidar a coesão de uma sociedade como também os
motivos que levaram a sua decadência. O filósofo explica que a
docilidade é o principal instrumento para diagnosticar e cuidar da patologia
que assola a nação. E o diagnóstico identificado por Ortega
é a ausência dos “melhores”.
O que isso quer dizer?
Para Ortega, o povo espanhol só consegue exercer funções
elementares da vida. Assim, o popular só sabe ser anônimo e por
isso falta na história espanhola a criação. Para Ortega
a primeira desgraça da Espanha foi não haver o feudalismo em sua
história. Não havendo o feudalismo como em outras nações
européias o povo espanhol não sentiu a necessidade de tornar-se
modernos. Assim, todas as modificações e realizações
necessárias para a consolidação da Idade Moderna caíram
na Espanha como algo estranho. Na verdade, o povo espanhol não sentiu
a necessidade em modificar suas circunstâncias o que é o núcleo
da filosofia raciovitalista de Ortega.
As colonizações que a Espanha sofreu em sua formação
incentivaram em sua apatia. Diferentemente do povo romano que para organizar
um povo funda o Estado, o povo germano utiliza-se da força bruta para
conquistar o território e fazendo-se senhores. Entretanto, foi esse espírito
germânico que transmitiu ao povo espanhol que quem deve mandar é
quem pode mandar.
Ortega destaca em seu texto que na Espanha pode-se dividir em três estratos
os erros de seu país que o impossibilita em firmar-se como nação
coesa. São elas: a primeira superficial que consiste nos erros e abusos
dos políticos, defeitos da forma de governo, fanatismo religioso etc;
o segundo estrato consiste numa grave enfermidade que é o particularismo
e sua conseqüência a ação direta e; o terceiro estrato
que consiste a raiz de todos os problemas é a alma do povo espanhol que
possui o espírito de valentia e força bruta.
Em suma, Ortega encontra a raiz dos problemas da Espanha o espírito de
conseguir alcançar os objetivos pela força física. Certamente,
este é o que torna a Espanha Invertebrada, isto é, sem projeto
comum para os seus cidadãos. O livro España Invertebrada possui
uma discussão atual da sociedade de massa e do marasmo do povo em discutir
os projetos ou rumos de sua nação. Ortega vale-se do raciovitalismo
para indicar que falta ao povo entusiasmo, vigor e amizade para enfrentar os
problemas que assolam o seu país.
Bibliografia
ORTEGA Y GASSET, José. España Invertebrada. Alianza Editorial:
Madrid, 2000.
Danilo Santos Dornas
Graduado em Filosofia
Pós-Graduando em Filosofia Contemporânea - Ética
Universidade Federal de São João del-Rei
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