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Danilo Santos Dornas
Nos dias atuais, freqüentemente, ouvimos discursos que tratam das vantagens
e das desvantagens sobre o ensino da História da Filosofia para jovens
estudantes. Os discursos são apresentados numa tentativa de demonstrar
a importância em despejar nas cabeças dos estudantes todo o legado
do passado filosófico, reduzindo o ofício do amor ao saber, numa
simples retilínea com sucessão de idéias mortas. Sabemos
que é importante integrar o passado filosófico ao exercício
de vencer os desafios contemporâneos. Nessa tentativa de vencer os desafios
contemporâneos consiste o Filosofar. Para articular a História da
Filosofia com o Filosofar, pensamos com o filósofo espanhol José
Ortega y Gasset (1883-1955) que trabalha esta questão em seu livro Origem
e Epílogo da Filosofia, cuja organização se realizou com
ensaios introdutórios para o livro História da Filosofia de seu
amigo Julían Marías.
Para Ortega y Gasset, o passado filosófico constitui um emaranhado de idéias
que se organizam numa série dialética. A série dialética
é a apresentação das idéias que se opõem, mas
que são dependentes entre si, e impulsiona uma dinâmica que move
a história. O ponto de partida para o exercício do pensar é
analisar o objeto que chega aos sentidos, mas não se esgota nos sentidos.
Para o filósofo, ao analisar um objeto estamos empregando uma reflexão
a fim de conceber um aspecto da realidade. Esta forma analítica de pensar
é a primeira instância do pensamento.
Ao pensar em algo somos forçados a pensar nas coisas que estão à
sua volta. O “pensar em torno” é o que acrescenta o pensamento
analítico inicial e, por isso o complica porque força-nos a pensar
nas circunstâncias de algo. Ao pensar no “em torno” estamos
pensando nas circunstâncias. A dialética é a força
que nos impulsiona e nos mantém pensando, considerando sempre o objeto
e as coisas à sua volta. A obrigação que temos em assumir
a tarefa de pensar é dada pela realidade vital, porque esta realidade não
pode ser negada, pois é experimentada e vivida.
O primeiro aspecto que a análise de algo nos oferece é a apresentação
de uma multidão de opiniões que o cerca. Mas sobre estas opiniões
empregamos a elegância em saber escolher o que melhor se adapta para o nosso
juízo. Para Ortega y Gasset, a palavra “elegância” conota
o sentido latino “eligentia”, que ao adicionar ao prefixo “int”
obtemos “inteligentia”, que significa o hábito de escolher.
O termo “elegância” é um dos principais elementos da
ética orteguiana. Por elegante entende-se o homem que nem faz, nem diz
qualquer coisa, mas faz o que é preciso fazer e diz o que é preciso
dizer.
Para Ortega y Gasset, a fisionomia do passado é constituída por
ruínas. Estas ruínas são os erros que nos foram legados pelas
diferentes gerações que viveram os problemas de sua época.
Assim, cada filosofia leva em conta os erros de outras teorias filosóficas
esperando não repeti-las, pois como diz o filósofo:
Cada Filosofia aproveita as falhas das anteriores e nasce, certa de que, pelo
menos nestes erros não cairá (Origem e Epílogo da Filosofia.
p.160).
A verdade é difícil a ser alcançada, porém o erro
é facilmente encontrado. Ortega y Gasset, entende que o erro nos aparece
naturalmente. No entanto, não existe um erro absoluto, porque mesmo do
erro pode-se extrair algo positivo. O termo “cético”, por
exemplo, surgiu no auge da cultura grega e não pode ser aplicado a aqueles
que “não acreditam em nada” como pensam algumas pessoas.
Os céticos eram “homens terríveis” porque não
deixavam as pessoas viverem sem questões. Para Ortega y Gasset, os céticos
“extirpavam a crença nas coisas que pareciam mais certas”
(Idem. p. 163). O sentido original do termo cético é a ocupação
em exaurir as verdades do vulgo, a fim de colocá-las em apreço
para análise e reflexão, e enfim coloca-las em dúvida.
Ao questionar, os céticos se empenha em refutar, isso funciona como um
choque, porque demonstra que a verdade ordinariamente assumida é insuficiente
para explicar o que se propõe.
Para explicar os problemas atuais, deve-se percorrer todo o passado filosófico,
com uma visão arqueológica. Ortega y Gasset explica que a Filosofia
atual tem como referência a Filosofia anterior. É como percorrer
um itinerário mental que todo aquele que se propõe a pensar a
realidade terá que seguir. O ato de percorrer simplesmente o passado
filosófico sem identificá-lo com os problemas atuais das sociedades,
consiste numa tarefa da mente adestrada. Esta mente adestrada, percorrerá
a série dialética do pensamento numa educação filosófica
sem o esforço de refletir, mas como uma ginástica de cultivar
a memória. Para refletir o passado filosófico buscando fundamentos
para explicar a sociedade contemporânea não basta abandonar os
erros precedentes, mas integrá-los a fim de edificar um conceito novo.
Para o filósofo espanhol, o passado filosófico nos deixou idéias
que não são as mesmas que temos atualmente. Isso significa que
um segundo olhar sobre algo revela-nos detalhes que primeiramente não
percebemos. A cada olhar o objeto deixa-nos escapar alguma revelação:
Proponhamos ver uma laranja. Primeiro, nós vemos dela apenas uma face,
um hemisfério e depois temos que mover-nos e ir vendo hemisférios
sucessivos. A cada passo, o aspecto da laranja é outro que se articula
com o anterior quando este já desapareceu, de modo que nunca vemos junta
a laranja e temos que contentar-nos com vistas sucessivas (Idem. p. 182).
Ortega y Gasset explica que mesmo Platão (427-347 a.C.) quando se refere
à idéia como algo totalizante, na verdade busca exprimir a noção
de um aspecto da realidade. Isso significa que, não existe nada que possa
ser apreendido em sua totalidade. O modo de o homem ver as coisas é sempre
um modo de apreender um determinado aspecto. A verdade é sempre perseguida
e nunca alcançada. A verdade é o resultado da adição
dos vários aspectos que conseguimos apreender da realidade. Por isso,
há a necessidade de estabelecer sempre um processo dialético como
integração para fundamentar um conceito novo.
Ortega y Gasset não dá ao termo “dialética”
o sentido adotado pelos românticos alemães, que em seus sistemas
declarava uma grande caça a verdade em nome do Absoluto. O pensador entende
o termo “dialética” como um conjunto de fatos mentais que
resultam ao se pensar a realidade. A realidade mostra a soma integral de seus
aspectos e numa operação dialética podemos: parar, prosseguir,
conservar e integrar, nunca deixando de refletir o presente.
O passado filosófico nos chega pelos títulos dos livros e o nome
dos seus autores. Os títulos e os nomes dos autores são apenas
uma referência aos problemas que eles tenta explicar em suas épocas.
Para tentar explicar os problemas que afligem sua geração, os
autores precisam aplicar a “alethéia”, que é o nome
primogênito da Filosofia.
Por “alethéia” entende-se descobrimento ou revelação.
A Filosofia, para Ortega y Gasset, é “uma faina de descobrimento
e decifração de enigmas que nos põe em contato com a própria
e nua realidade” (Idem. p. 210). A “alethéia” é
a própria verdade revelada.
O que fazia o homem com sua mente antes de pensar o mundo? Para Ortega y Gasset,
todo pensar possui um subsolo, um solo e um adversário. Antes de o homem
iniciar seu pensamento sobre o mundo existiu algum subsolo que o suportou e
o impulsionou a pensar. No passado grego, esse suporte e impulso foram à
falta de credibilidade nas explicações divinas.
Ao filosofar o homem exercita sua liberdade. Para Ortega y Gasset, a liberdade
não brota da ética e nem da política porque estas instâncias
não são a raiz da vida. A liberdade é a escolha entre as
carências de necessidades vitais. O filósofo explica que o círculo
das possibilidades é bem maior que o das necessidades. E a vida é
pobreza, portanto necessidades. A vida é sempre insegura. A dúvida
é o meio pelo qual o homem sai de suas necessidades. O filósofo
René Descartes (1596-1650) ensina que o método é a reação
a uma dúvida, e foi nesta perspectiva que Ortega y Gasset explica que
para suprir as necessidades deve-se recorrer à dúvida porque ela
é postulação de um método.
A mais antiga divisão do pensamento humano acontece entre o sagrado e
o profano. O deus que aparece nos tempos remotos da Grécia não
é um deus religioso, mas um deus conceitual. Este deus conceitual é
produto da racionalidade, que consiste na livre escolha para buscar um novo
fundamento. A essa livre escolha dá-se o nome de Filosofia. A tonalidade
própria do pensador é o insulto ao vulgo, pois é sua a
missão de possuir idéias opostas à opinião pública.
A preocupação dos filósofos gregos era discutir sobre eles
mesmos e sobre a vida na polis. A palavra “Filosofia” devia circular
neste ambiente para significar a ocupação com todas as novas disciplinas
– desde a Filosofia Natural até a Retórica. A Filosofia
é uma tentativa de explicar o mundo, interagindo o passado com o presente
e ampliando os seus horizontes nas mais diversas disciplinas. Toda descoberta
científica, toda verdade nos põe numa visão repentina e
imediata de um mundo que até então desconhecíamos e com
o qual não contávamos. O diálogo filosófico nos
impulsiona para novas descobertas.
BIBLIOGRAFIA
ORTEGA Y GASSET, José. Origem e Epílogo da Filosofia. Ibero-Americano:
Rio de Janeiro, 1963.
Danilo Santos Dornas
Graduado em Filosofia
Pós-Graduando em Filosofia Contemporânea – Ética
Universidade Federal de São João del-Rei
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