Pedagogia da diversidade

 


MARIO AGUILAR A. e REBECA BIZE B.

Santiago de Chile, março de 1998

I- QUEM SOMOS?


Somos educadores que se inspiram nos princípios e valores do Novo Humanismo, preocupados com o rumo que tomaram as mudanças que estamos vivendo e que trabalham com métodos não-violentos para dar sentido humano a essas mudanças. Por isso, temos tomado a iniciativa de colocar em marcha uma corrente de opinião com o objetivo de influenciar e dar uma orientação humanista às transformações que a Educação sofrerá nos próximos tempos. Aspiramos a gerar uma alternativa educativa capaz de construir novas propostas e de converter essas em práticas pedagógicas concretas. Nas seguintes páginas se explicam os fundamentos teóricos da proposta e se especificam como podem participar os interessados a incorporar-se a este projeto.

II- A EDUCAÇÃO AFETADA PELA CRISE DA SOCIEDADE


Para muitos educadores é evidente que a educação já não é resposta satisfatória para as necessidades do mundo atual. Por isso, não são poucos os educadores que, conscientes da envergadura da crise em que se vive, buscam respostas que dêem sentido à educação, já que esta, ao subordinar-se a interesses e motivações de claro teor economicista ou conceber - se simplesmente como reprodutora das condições sociais existentes, não tem conseguido priorizar as respostas que hoje o ser humano necessita.


Nós difundimos a necessidade de um novo paradigma na educação, mas sem dúvidas não resulta plenamente viável a aplicação quando os contextos macro sociais continuam sendo fortemente influenciados por valores e princípios de claro teor economicista e desumanizante. Por isso, inevitavelmente, os projetos educativos não podem abster-se de uma vinculação estreita com o contexto social em que se situam. Dito de outro modo, uma proposta educativa humanizadora deverá situar-se necessariamente na perspectiva de uma transformação social e cultural, o que lhe permitirá constituir-se em uma proposta global coerente. 


Não há dúvidas que a sociedade está se transformando aceleradamente. Isso põe em severa crise as antigas instituições e os antigos métodos. Assistimos a um processo de mundialização que parece irreversível, e por isso resulta necessário pensar os fundamentos desta nova sociedade planetária ou, mais adiante, desta nova civilização global que se está gestando. As perguntas fundamentais são: "Que forma tomará esse novo mundo?", "Para onde se dirigem os acontecimentos?", "Que imagem de um novo mundo pode-se propor?". Essas perguntas nos parecem fundamentais já que, como em toda época de crise, se apresentam diferentes opções a respeito do curso que podem tomar os acontecimentos. Assim como esta crise é a possibilidade de nos abrirmos a novas perspectivas que nos possibilitem uma evolução em direção a uma sociedade mas humana, solidária e libertária, surgem também as vozes que propõem alternativas obscuras, reacionárias e autoritárias. 


A educação hoje em dia não dá resposta a essa crise: porque não forma as pessoas para o mundo em que vivem. Não serve para as crianças (porque não aprendem e se aborrecem) e não serve para os professores que apenas conseguem sobreviver com seu trabalho e que vêem com frustração que sua vocação vai sendo avassalada pelo sistema. 


O professor é o executor do projeto de educação e é sobre ele que recai o peso da crise do sistema. Sente-se impotente vendo como se deterioram seus alunos dia a dia e cada vez têm menos influência para modificar a situação. Por sua parte os alunos, que estão obrigados a assistir às aulas, sentem-se cada vez mais desmotivados. A situação que o jovem vive na escola é contraditória a sua necessidade de dinâmica e expressão corporal; ademais a tendência homogeneizadora da escola atenta contra a diversidade pessoal e cultural.


É evidente que necessitamos de uma mudança muito profunda no sistema educativo. 
Mas não só no sistema educativo, também se faz indispensável a transformação pessoal dos seres humanos que dele participam. Os professores devem ser referência nesse sentido. O que acontece com o projeto de vida do professor? Onde está aquele professor recém-saído da Universidade, cheio de idéias novas que gostaria de implementar com seus alunos para ajudar a formar melhores pessoas?


Acontece que vivemos em um sistema de frustração aprendida que vai anestesiando nosso talento e nossas inquietudes.


Estamos em presença de um sistema educacional em crescente desumanização. Tirar uma nota é mais importante que aprender, temer ao professor ao invés de respeitá-lo, uma profunda falta de comunicação entre alunos e professores, entre colegas, entre professores e encarregados, etc. O professor se vê obrigado a converter-se em um "domador" mais que em um formador, sua real vocação.


O Sistema Educacional tem hoje um marcado selo de discriminação. Prepara poucos para o governo e controle da Sociedade e a maioria como mão-de-obra barata e submissa. Há um abismo entre a qualidade de Educação privada e a gratuita, e o professor se vê obrigado a se tornar cúmplice dessa monstruosidade.


Quando a sociedade se pergunta "Por que há tanto consumo de drogas?", "Por que aumenta a insegurança?", "Por que aumentam os suicídios entre os jovens?", não se precisa buscar muito longe, basta apenas ver em que estado se encontra o sistema educativo público e privado.


Quer nos agrade ou não, temos que tomar consciência de que houve um divórcio entre o modelo econômico e a necessidade de educação. Isso faz com que qualquer notícia de alguma melhora resulte em mentira e hipocrisia se não abordar os temas de fundo, que não são somente um problema de recursos, mas também um problema existencial e de sentido.


Por isso, os educadores de hoje devem ser a voz e a ação do melhor do ser humano, ser quem levanta a esperança e quem mostra na prática que uma nova e melhor forma de viver é possível.


Se a realidade e o mundo é um constante fluir e a transformação permanente é seu elemento constitutivo essencial, poderá seguir-se justificando uma idéia de educação meramente reprodutora ou socializadora?

III- CONCEPÇÃO DO SER HUMANO


Para nós, o ser humano é consciência ativa e, portanto, construtor de realidade. Consequentemente, definimos o ser humano como um ser histórico e social, e o que o define enquanto tal é a reflexão do histórico-social como memória pessoal. Cada animal é sempre um primeiro animal, mas cada ser humano é seu meio histórico e social, e é, ademais, a reflexão e a contribuição à transformação ou inércia desse meio. Por isso, para nós, o ser humano é, acima de tudo, um construtor; e é a intencionalidade humana o que move o mundo, o transforma, o melhora ou piora, o faz evoluir ou involuir, o converte em um paraíso ou em um inferno. Essa concepção é coincidente com o enfoque da corrente de opinião do Novo Humanismo. 


Por isso, já não se pode sustentar-se uma educação cuja concepção do ser humano seja a de um ser passivo, mero receptor ou reflexo de uma suposta "ordem natural" ou "condições objetivas" que o determinam mecanicamente. Mas hoje é claro que a educação vê o aluno ou "educando" como um sujeito passivo, receptor de conteúdos que lhe vão entregando. Menos evidente é que o educador também é visto como um sujeito passivo, que simplesmente deve resumir-se a aplicar planos e programas que tem sido desenvolvidos por funcionários da ordem e poder estabelecidos. Aí há uma concepção de paradigmas antigos, onde os conhecimentos passados são objetos externos ao sujeito. Os conhecimentos e a informação deveriam ser algo que se adquire porque outra pessoa o transmite, ou porque se busca e se adquire tal qual se é entregado pela fonte que os origina. Nessa idéia, o conhecimento estaria fora do sujeito e este deveria ir buscá-lo. Para nós, o conhecimento mais que um objeto externo, se constrói internamente.


Desde uma perspectiva em que o ser humano é consciência ativa, o que se percebe da paisagem externa depende de cada pessoa, com o compromisso do corpo nessa interação e desde um particular modo emotivo de se estar no mundo. Nessa interação, o ser humano é o protagonista da sua história, é essencialmente transformador incluso de sua própria natureza (corpo). Isso é simples de se compreender a nível social onde é mais evidente que o progresso humano e histórico foi assim gerado, mas não resulta tão evidente que isso também ocorre de maneira similar no desenvolvimento individual.
Frente a isso, cremos que essa concepção do ser humano como um ser histórico e social (e não só social) é, evidentemente, um salto qualitativo de importância em relação a suas possibilidades transformadoras e de aperfeiçoamento. Em tal concepção se torna inaceitável uma educação meramente reprodutora e que resulta, por certo, insuficiente à luz das enormes potencialidades transformadoras e construtoras de realidade e sentido que detém o ser humano.


Foi chegado, então, o tempo de se construir uma nova educação.

IV- A NECESSIDADE DE UM NOVO PARADIGMA EDUCATIVO


Isso implica, necessariamente, em pensar um novo paradigma educativo. Não falamos somente de uma mudança na metodologia, ou em uma modificação dos planos e programas. Falamos da necessidade de um novo modelo educativo, uma nova concepção, uma nova aspiração humana que permita efetivamente ao ser humano desenvolver o melhor de suas potencialidades e possibilidades e que, consequentemente, permitam a construção de uma nova sociedade. Trata-se, então, de construir uma proposta educativa e pedagógica de claro e nato caráter humanista. Coincidimos com o educador e investigador Ricardo Nassif, que assinala a seguinte necessidade:


"Uma educação que, segundo os casos, contribua para criar as condições para uma compreensão do funcionamento da sociedade. Acaso trata-se de transformá-la, que leve a seu questionamento, mas proporcionando aos homens os meios para produzir sua transformação" (do livro "Teorias da Educação")
Ou seja, propiciamos uma educação comprometida com a transformação em prol de uma melhor sociedade e, para tanto, discutimos a idéia de uma educação que somente reproduza as condições sociais existentes e "adapte" as novas gerações a tais condições.

1- FUNÇÃO HABILITADORA DA EDUCAÇÃO


Acreditamos que a educação tem fundamentalmente uma função habilitadora, em contraste com a educação atual que é socializadora, reprodutora das condições atuais, autoritária, impositiva, instrutora e passiva.


Em função dessa nova educação requisitada é que temos uma nova definição da missão fundamental dessa. Consideramos obsoleta uma visão meramente instrucional ou de formação passiva, com conteúdos, princípios e valores que se apresentam como uma verdade estabelecida e imutável. Pelo contrário, necessita-se educar o estudante com a capacidade de adaptação crescente à mudança e possibilitar a incorporação ativa e precoce das novas gerações à construção social. Nesse sentido, colocamos que a missão da educação é, basicamente: 


Habilitar as novas gerações para o exercício de uma visão plural e ativa da realidade, de maneira que seu olhar tenha em conta o mundo não como uma suposta realidade objetiva, mas como um meio no qual o ser humano aplica a sua ação, transformando-o e humanizando-o.


Ao utilizar o conceito de habilitar, estamos querendo enfatizar a idéia de educação como um processo de construção onde o estudante desempenhe o papel ativo. Um processo que lhe permita o desenvolvimento e cultivo de suas capacidades, sem exceção, de maneira que conte com as ferramentas intelectuais, emotivas e motrizes pertinentes para um desempenho eficaz e construtivo em uma sociedade cujo signo essencial é o dinamismo e a mudança permanente.

Os princípios fundamentais de uma nova educação devem ter em conta:


A- O exercício intelectual de uma particular visão sem preconceitos sobre as paisagens e de uma atenta prática sobre o próprio olhar
O que se propõe a respeito desse ponto é que o estudante desenvolva uma visão particular desprovida de preconceitos sobre as paisagens. Isto é, a consideração de que não existem visões nem verdades absolutas, visto que a "paisagem" é uma particular estruturação de sua consciência, e não uma realidade em si mesma. Por sua parte, "atenta prática sobre o próprio olhar", significa observar atentamente a própria construção ou estruturação da particular forma de "ver".


B- O exercício do pensar coerente. 
Neste caso, não se está falando de um conhecimento específico, mas de um contato com os próprios registros do "pensar", quer dizer, do domínio e consciência dos processos de construção do conhecimento. É também utilizar ou exercitar a metacognição, tornando presente ou consciente a própria forma de aproximação ao conhecimento e/ou ao crescimento pessoal. Isso significa que o sujeito adquire a habilidade de observar como são os mecanismos de aprendizagem, dar-se conta de como se está aprendendo, raciocinar sobre o que se aprende, quais são os fios condutores, que coisas se está associando, tirar conclusões, ter registro e/ou sensibilizar-se frente ao tema do pensar.


C- O estímulo da captação e o desenvolvimento emotivo. 
Destaca-se a importância de que os indivíduos tomem contato emotivo consigo mesmo e com outros, sem os transtornos induzidos por uma educação separatista e inibidora. Esse ponto está a muitas léguas da Educação atual, já que o funcionamento emotivo do ser humano não está devidamente considerado no exercício da prática docente. Os docentes não têm sido preparados para conhecer o desenvolvimento emotivo, e a cotidianeidade escolar é a mais carente da tomada contato emotivo consigo mesmo e com os demais. É através da emotividade que o ser humano tem a percepção de si mesmo em termos de felicidade.


D- Controle do próprio corpo. 
Deveria ter-se em conta uma prática educativa que colocasse em jogo todos os recursos corporais de modo harmônico - trata-se de tomar contato com o próprio corpo, de controlá-lo de forma solta. Visto que o corpo é uma ferramenta de expressão da intencionalidade humana, é evidente a importância de um adequado manejo e controle do mesmo. Para tanto, são importantes o desenvolvimento de suas potencialidades orgânicas e de determinadas habilidades motrizes que ampliam sua riqueza de movimento. 


Uma educação verdadeiramente integral deve contemplar o desenvolvimento da corporalidade, entendendo por tal a integração emotiva do corpo, sua aceitação e incorporação como parte integrante e inseparável de cada um. Trata-se de uma adequada habilitação das capacidades de sentir e registrar o corpo, de compreender sua linguagem e de desenvolver-se a capacidade de se comunicar com outros através do que podemos denominar uma "linguagem corporal". Estamos falando, então, de habilitar a integração entre o corpo e o mundo interno ("desde dentro") e entre o corpo e o mundo externo ("desde fora") 


Humberto Maturana nos ilustra com clareza a respeito da educação e sua finalidade
"O centro da educação é a formação humana. Em que nossas crianças cresçam e que se respeitem a si mesmos e aos demais, e que podem dizer por si próprias que sim ou que não. O respeito não é a obediência, o respeito é a possibilidade de colaborar.
Mas para que isso aconteça em nossas escolas, nossos professores devem respeitar-se a si mesmos, têm que atuar desde si na confiança de que são eles o recurso fundamental da Educação, e não os computadores, não a conexão com a Internet, que são apenas instrumentos.9


No momento em que os professores respeitarem-se a si mesmos, vão poder gerar espaços nos quais os alunos poderão aprender qualquer coisa. Nem as Matemáticas, nem a Física, nem a Química oferecem nenhuma dificuldade em si. As dificuldades estão na emoção, no medo, na ambição, nas expectativas que os demais têm sobre alguém e que esse deve satisfazer.


O que necessitamos é que os alunos aprendam a ser o que querem ser e adquiram a bagagem de elementos necessários para poderem orientar-se da maneira que queiram, como seres sociais, responsáveis, em qualquer mundo que queiram viver. Não temos idéia de como vai ser o Século XXI ! " (Humberto Maturana Artigo "Educar para colaborar ou para competir " Revista de Pedagogia", pag, 133; 1997)
Certamente estamos longe de uma educação que esteja de acordo com a necessidade deste minuto histórico e que possibilite um avanço na construção do ser humano do Século XXI. O que hoje acontece na escola está muito longe de nossas aspirações.

O QUE HÁ 
Educador e aluno passivo 
Instrução 
Visão ingênua da realidade 
Verdade absoluta 
Repetição e "adaptação" social 
Ensinar, memorizar, impor 
Submissão, obediência 
Deslumbramento sem crítica nem julgamento 
Pensar desestruturado 
Educação da separatividade, racionalismo puro 
Competência 
Desvalorização de si mesmo e dos demais. Baixa autoestima 
Uniformidade 
Conservação 

 

O QUE QUEREMOS

Educador e aluno ativo

Construção de conhecimento

Visão ativa e transformadora da realidade

Visão pluralista da realidade

Construção social e "adaptação crescente"

Habilitar (capacidades, nova visão)

Respeito por la subjetividade, personalização

Atenta prática sobre o próprio olhar

Pensar coerente

Contato emotivo consigo mesmo e com outros. Governo do próprio corpo

Solidariedade, colaboração, contato emotivo com outros, responsabilidade social

Respeito e valorização de si mesmo e dos demais

Diversidade

Transformação

2- GRAVITAÇÃO DO EMOCIONAL SOBRE O RACIONAL, PENSAR COERENTE


A atual educação concebe o ser humano como ser racional, atribuindo à função intelectual maior preponderância sobre as funções emotivas e motrizes. 
Devido a essa concepção, o que se transmite é somente instrução, informação e/ou dados.


Todavia, novas pesquisas têm se dado conta de que a função emotiva é preponderante porque determina o domínio, o âmbito do tipo de ações que se possam efetuar em um determinado momento. 


"É através da emoção (domínio de ações) que se realiza ou se recebe um fazer, o que dá a esse fazer seu caráter como uma ação (agressão, carinho, fuga) ou outra. Por isso, nós dizemos: se quiser conhecer a emoção, observe a ação, e se quiser conhecer a ação, observe a emoção." (Humberto Maturana , Gerda Verden-Zöller. "Amor Jogo: Fundamentos Olvidados do Humano". Coleção Experiência Humana. 1993).


O emocionar é uma particular forma de se estar no mundo, isto quer dizer que a postura corporal, a linha de pensamento e o atuar está determinado pelo estado de ânimo. Transita-se por distintos estados emotivos, o essencial dessa situação é que o emocionar determina um certo domínio de ações, e não outro.


Nenhum ato humano está subtraído de um verniz emotivo que o acompanha.. Quando se pensa, se conhece, se fala, se dança, se joga, etc., sempre se faz desde um particular modo emotivo de estar no mundo. Então, concluímos que uma verdadeira educação não pode considerar como central somente o racional e intelectual, e como algo secundário o emotivo e o motriz. A educação da fragmentação, que bloqueia a expressão emotiva produz no ato uma espécie de "castração" que vai inibindo este fundamental aspecto próprio dos seres humanos.


Por outro lado, o restrito desenvolvimento das habilidades e do domínio corporal vai restringindo a expressão motriz, dificultando a plena possibilidade de intenção no mundo ao subutilizar-se as potencialidades de ação que o mesmo brinda.


Curiosamente, este restrito conceito de Educação de caráter primariamente racionalista não permite um bom desenvolvimento intelectual. Somente um verdadeiro desenvolvimento integral possibilita um máximo desenvolvimento cognitivo e, em consequência, mental. Somente a Educação que integre o cognitivo, o emotivo e o motriz desperta o máximo potencial de cada um.

3- EDUCAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO E A LIBERAÇÃO.


O nascimento da instrução educativa como hoje conhecemos vem da industrialização, e seu curriculum oculto busca impor as condutas de: pontualidade, obediência e trabalho repetitivo. Esta é a preparação básica para as indústrias. Chomsky faz uma interessante referência quando diz:


"Grande parte do sistema educativo está desenhado para cumprir com esse objetivo, é pensado para esse fim; está desenhado para a obediência e a passividade, para impedir que as pessoas sejam independentes e criativas." (Noam Chomsky. Conversações com David Barsamian. Editorial Grijalbo Mondadoni. Barcelona 1996).


A instrução educativa como está concebida atualmente já não tem sentido para a sociedade, não cumpre com os objetivos para os quais foi criada. A origem da escola como hoje a conhecemos vem da industrialização, onde a escola é uma espécie de réplica da fábrica. Entende-se que a escola deve "produzir" trabalhadores e que a Universidade deve "produzir" profissionais. Dessa maneira, com esse tipo de Educação intenciona-se "objetivar", fazer do ser humano uma "coisa", truncar sua intenção ou submeter a intenção de muitos em função de poucos.


Cremos que agora cabe uma reflexão: Por um acaso os milhares de anos de evolução do ser humano serviram para que a escola produza trabalhadores? Acreditamos que os educadores estão nessa função por motivações bem mais elevadas, e também cremos que chegou o momento de se rebelar e fazer alguma coisa, construir a Educação que aspiramos para o Século XXI.


Queremos uma Educação verdadeiramente libertadora, das mulheres e homens do nosso tempo. Que não condicionem desde pequenos o futuro das pessoas, que efetivamente ofereça oportunidades iguais para todos e que, por cima de tudo, se reconheça o direito de todos, sem exclusão alguma, pelo único direito de viver nessa Terra, a uma Educação gratuita e de boa qualidade.

4- RELAÇÕES DE COERÊNCIA VERSUS RELAÇÕES DE AUTORITARISMO, DISCRIMINAÇÃO E VIOLÊNCIA


O ser humano orienta-se para a felicidade e foge do que lhe produz dor, aspirando a sua realização pessoal. Por ser um sujeito social e histórico, realiza-se nas relações com os outros, e essa relação é plena quando assumida com uma atitude ativa, ou seja, atuar com reciprocidade com a finalidade de passar a outros o que recebeu. Por isso, falando das relações pedagógicas, afirmamos a igualdade de todos os seres humanos que se relacionam na prática educativa.


Nesse sentido, o tema que é necessário ser discutido é como se estabelecem as relações de poder e domínio no interior da escola. Em primeiro lugar, o sistema político é quem tem poder e domínio sobre a instituição escola; na instituição escola estão os diretores que têm poder e domínio sobre os docentes e os pais; logo estes têm poder sobre os estudantes e filhos, respectivamente. Finalmente, em último lugar, os estudantes de cursos superiores têm poder sobre os menores, ou seja, todo um sistema de poder e dominação cujo resultado fundamental é o desenvolvimento da violência, que de maneira sutil ou explícita vai-se incubando no interior do Sistema Educativo. Numerosas práticas indesejáveis como: a substituição das pessoas por outros interesses, a desigualdade de direitos, a discriminação de todas as formas, a imposição de verdades absolutas, a perseguição de idéias e crenças e o exercício da violência física ou psicológica são práticas que hoje existem no sistema educativo, principalmente através de formas ocultas do curriculum e que em uma nova educação não poderiam ter nenhuma justificativa. 


Estamos certos que isso implica em uma alta exigência ética e moral para o docente - não apenas no conceitual, mas principalmente no que faz na sua atitude prática na vida. Contudo nos parece que tal exigência é pertinente, dada a magnitude da tarefa e das responsabilidades que implica. Esses princípios e valores não são algo apenas para se declamar ou formular teoricamente. Devem ser, sobretudo, uma atitude que todo o Sistema Educacional ponha em prática, de maneira tal que opere como modelo para a criança e o jovem - porque o vê aplicado, não porque o escuta em um discurso. 
Falamos então de uma nova coerência e ética pessoal e social. Entendemos por ética o que tem a ver com a preocupação pelas conseqüências das próprias ações sobre outro e que desde a escola deveria emanar para influenciar todo um fazer social.


O ponto é que a educação deveria propiciar um sistema onde se estabeleçam relações sujeito-sujeito e não sujeito-objeto. Na educação a autoridade deve ser ganha pelo conhecimento que se tem, pela sabedoria com que se utiliza esse conhecimento, pelas relações de coerência que se estabelecem, pela qualidade humana que se transmite. Devemos chegar a uma prática educativa capaz de fazer com que os estudantes sintam-se referenciados por um fazer que os convoca, os ilumina, os orienta e os atrai, porque isso tem significado e não porque o docente tem o poder da qualificação ou a atribuição de castigar. Este último - como base da relação - resulta cada vez mas ineficaz, absurdo e sem sentido.


Desde a perspectiva de que o aluno tem consciência ativa é que propomos a real participação das crianças e jovens nos objetivos, gestão e execução de todas as ações educativas. Como é possível que não possamos nos colocar de acordo nos problemas medulares da educação que nos afetam tanto? Propiciemos, então, uma gestão conjunta com jovens e pais segundo corresponda.

5- O SENTIDO PROFUNDO DO TRABALHO EDUCATIVO


O conceito de educação tradicional está sendo rapidamente superado pela História. A educação, em tal caso, torna- se cada vez mas vazia de sentido. Se entendemos a educação com uma finalidade de instrução e transmissão de conhecimento (instrucional), sua obsolência é evidente ao existir meios muito mais eficazes e amplos de se ter acesso à informação como, por exemplo, as bibliotecas audiovisuais, as bases de dados, as redes informáticas, etc. Ou, se por outra parte, entende-se como uma transmissora de valores, surge a imediata interrogação: Sobre quais valores se fala - em especial em uma sociedade cada vez mas mundializada onde a inter-relação cultural vai produzindo uma crise de determinadas concepções valóricas que se apresentam como uma verdade indiscutível. Não há dúvidas de que uma concepção educativa tradicional vai perdendo sentido ao não ser capaz de dar resposta às novas realidades e necessidades sociais; isto gera frustração em muitos educadores que vêem como seu trabalho perde influência entre os jovens, uma vez que estão sendo cada vez mais fortemente influenciados por outros meios. Dotar a Educação de um sentido profundo e verdadeiro passa por redefinir sua finalidade, explicitar e precisar os valores universais que proclama e promove e assumir um categórico compromisso pela melhora e desenvolvimento social. Coincidimos então com o que diz o educador espanhol Jurjo Torres:


"Poucas vezes ao longo da História fez-se tão urgente a aposta por uma educação verdadeiramente comprometida com valores de democracia, solidariedade e crítica, caso se queira ajudar aos cidadãos e cidadãs a fazer frente a essas políticas de flexibilidade, descentralização e autonomia que se estão propagando desde as esferas trabalhistas. É preciso formar pessoas capacitadas com crítica e solidariedade, mas não queremos torná-las, todavia, mais indefesas. Por enquanto serão as professoras, professores, estudantes e conjuntos sociais progressistas, convencidos do valor da Educação, quem ultrapassará a toda classe de obstáculos, e seguirá abrindo novas brechas, desenvolvendo práticas educativas mais democráticas, nas quais os meninos e meninas pertencentes a conjuntos sociais não hegemônicos não seriam discriminados" (do livro "Globalização e Interdisciplinariedade: o curriculum integrado").


Nos parece também revelador o que expressa Maturana a esse respeito:


"Pensamos que a tarefa da educação escolar, como um espaço artificial de convivência, é permitir e facilitar o crescimento das crianças como seres humanos que respeitam a si mesmos e aos outros com consciência social e ecológica, de modo que possam atuar com responsabilidade e liberdade na comunidade a que pertencem". Formação Humana e Capacitação, Humberto Maturana e Sima Nisis de Rezepka. Editorial Dolmen, 1995


Estamos dizendo, então, que a educação tradicional cada vez mais se aproxima do sem-sentido ao não poder cumprir com sua finalidade. Por isso, uma nova educação que se deseja deverá ter como finalidade principal dotar-se com um sentido de desenvolvimento humano e transformação social, colocando-se à margem, então, daquela concepção reducionista que a põe a serviço dos grupos de poder. Muitos devem orientar-se nessa direção, mas são os educadores os que acreditamos ter o papel inicial de dar orientação e referência nesse sentido. Propomos, então, o compromisso da Educação com o que podemos denominar valores universais, que são os seguintes: 


1. Posicionar o ser humano como valor e preocupação central
2. Afirmação da igualdade de todos os seres humanos
3. Reconhecimento da diversidade pessoal e cultural
4. Tendência ao desenvolvimento do conhecimento acima do aceito como verdade absoluta
5. Afirmação da liberdade de idéias e crenças
6. Repúdio à violência.


Estes valores universais, tem o mérito de estar em condições de estabelecer um grande acordo em torno deles, sem asfixiar a diversidade pessoal e cultural que reclamam as distintas comunidades que coexistem nesta sociedade contemporânea cada vez mais complexa.

V - NOSSA PROPOSTA


Já não basta somente falar da crise ou fazer sisudos diagnósticos. Chegou o tempo que se necessitam propostas e ações concretas.


Propomos então a criação de uma organização de educadores para uma nova educação. Esta vinculará e conectará os milhares de educadores, que estão conscientes desta necessidade, e que estão dispostos a colaborar com um projeto desta envergadura.


Trata-se de criar âmbitos de reflexão, intercâmbio de experiências, desenvolvimento de propostas e ação direta, que mostre a mudança que necessitamos.
Para isso será adequado fazer publicações ( artigos, colunas de opinião, revistas, livros, projetos, etc. ), organizar oficinas, seminários, cursos e congressos, e em geral propiciar todo tipo de atividades, que promovam e animem o intercâmbio, a conexão e difusão destas propostas.


Para isso então, devem-se ir criando grupos de educadores nas prefeituras e cidades, organizando essas atividades a nível local, além de se vincular, e de se conectar com esta rede a nível nacional e internacional.


Naqueles pontos onde a influência destas idéias vão crescendo, se colocarão em aplicação suas propostas educativas, e irão demonstrando na prática que uma nova educação é necessária e possível.


A cada certo tempo deverão se realizar encontros nacionais e internacionais, que permitam um contato e intercâmbio direto em torno das diferentes propostas e experiências desenvolvidas nos diversos pontos.


Trata-se então de criar organizações de educadores dispostos a impulsionar as tarefas propostas.


Numa primeira etapa serão alguns poucos os que colocarão em marcha as primeiras atividades de difusão destas idéias. Depois esse grupo inicial irá crescendo dando lugar a uma organização de maior nível de desenvolvimento.


A meta é chegar a uma organização, em que haja a presença da mesma em todas as regiões do país, e dentro das regiões na maior quantidade de prefeituras e cidades.
Onde existir um número mínimo de 10 pessoas ativas neste projeto, com definição de funções, ali podermos considerar que se gerou um nível básico de organização.
Paralelamente com este processo de crescimento nacional deveriam-se estabelecer contatos para gerar um vínculo com organizações e educadores de diferentes países, que coincidam com as propostas fundamentais que propiciamos.

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