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Por Fernanda de Araújo Melo (Bolsista de Iniciação
Científica / UFSJ)
Orientador: Prof. Dr. José Maurício de Carvalho / UFSJ
I – Considerações iniciais
A referida comunicação tem como objetivo examinar o significado
dos valores na ética raciovitalista de Ortega y Gasset. A questão
dos valores é um tema que Ortega considera relevante para entender
como ocorre a relação do homem com o mundo que o circunda. Segundo
ele, quando o homem ignora o papel dos valores fica distante de
perceber o que está acontecendo à sua volta.
Cabe ressaltar que as discussões e análise sobre o significado do
valor foram desenvolvidas no século XX. Antes, o problema vinha
vinculado à outras questões, conforme esclarece o filósofo:
“o valor ou aparece fundido e indiferenciado em outros problemas,
ou pelo contrário, se deslizará disfarçado sobre algumas de suas
formas particulares” (O.C., p. 316. v. VI).
Faz-se necessário precisar que a questão dos valores está presente
em toda historia da filosofia, mas somente na contemporaneidade
passa a ser investigado separadamente com o desenvolvimento da
axiologia.
Na ética raciovitalista, o significado do valor encontra-se
diretamente relacionado com as escolhas que temos que fazer.
Segundo Ortega, viver é fazer algo, é escolher dentre as inúmeras
possibilidades, qual caminho seguir. E estas escolhas, esclarece o
filósofo, pautam-se nos valores que o sujeito identifica para
melhor administrar a sua vida.
Dividimos essa comunicação em duas partes. Inicialmente veremos
como o filósofo estabelece as bases de sua ética raciovitalista.
Os detalhes são apresentados no item III. Em seguida, assumimos
como eixo de investigação a sua teoria do valor, cujos aspectos
investigamos nos itens IV e V.
II – Revisão de literatura
Utilizamos nessa comunicação as Obras Completas, de José Ortega y
Gasset, editadas em Madrid, pela Alianza. Como leitura de apoio,
valemo-nos de alguns comentadores: História da Filosofia de Julián
Marías. Na referida obra, Marías dedica um capítulo para comentar
os principais pontos da filosofia orteguiana. Discípulo direto de
Ortega, é o principal intérprete da filosofia raciovitalista.
Introdução à Filosofia da Razão Vital (2002), de José Maurício de
Carvalho. Nesta obra, o autor faz uma leitura culturalista do
pensamento orteguiano. No capítulo “A vida e seus valores”, afirma
que Ortega fez uma filosofia da cultura, onde inseriu sua teoria
do valor. Este livro é um dos principais estudos, em língua
portuguesa, da filosofia de Ortega y Gasset. Ele nos fornece uma
visão completa do filósofo.
Ortega y Gasset, a aventura da razão (1994), de Gilberto de Melo
Kujawski. Estudioso e intérprete da filosofia orteguina, Kujawski
é conhecedor profundo da obra orteguiana e, a partir dela, busca
pensar a vida e a realidade brasileira. Na referida obra, faz uma
abordagem dos principais pontos tratados por Ortega.
Outros comentadores de destaque são Ubiratan Macedo e Nelson
Saldanha, cujos estudos nos permitem uma apreciação detalhada do
autor.
III – A Ética Raciovitalista
Em sua formulação teórica, Ortega não trata dos problemas
desvinculando-se da sua realidade, mas, ao contrário, pensando-os
sempre a partir da sua circunstância. No entender do estudioso
Ubiratan Macedo (2001):
“Ortega encontrou no seu tempo um dramatismo peculiar. Trata-se da
crise do ocidente, da civilização, da razão, do sentido da vida”
(p. 52).
O filósofo utiliza o termo Circunstância para designar tudo o que
me rodeia, tudo em que me encontro e com o qual tenho que haver.
Nesse sentido, o homem constrói a sua realidade na medida que
interpreta o mundo que o circunda. Em sua primeira obra Meditações
do Quixote (1914), afirma que eu sou eu e a minha circusntância e
se não salvo a ela não salvo também a mim. Significa dizer que a
minha vida se estrutura na relação com o que constitui o entorno
do eu.
Trata-se de pensar “eu com as coisas”, ou melhor, eu transformando
as coisas, porque viver é fazer algo; é escolher dentro das
inúmeras possibilidades que a circunstância apresenta, aquela que
se aproxima da espontaneidade mais íntima da vida de cada um.
Pode-se dizer que a pretensão de Ortega é pensar uma relação
complementar entre o homem e o mundo.
É a partir dessa ótica que Ortega estabelece a sua ética
raciovitalista. Segundo ele, para compreender o homem e a sua
realidade devemos colocar a vida no centro da investigação,, pois
é nela que se manifestam todas as formas de experiência do real.
As demais realidades para que signifiquem algo, tem que aparecer e
se manifestar em minha vida.
Daí segue-se que o projeto moral da filosofia orteguiana encontra-se
no imperativo vital. O que significa que o homem é responsável por
suas escolhas e cria o seu próprio projeto moral. Na ética
raciovitalista, o traço que identifica o homem moral, o maior
valor é de se entregar a sua íntima e original espontaneidade.
Entregar-se a um projeto vital, a uma vocação, sendo fiel a si
mesmo é característico do ato moral em sua plenitude. Cabe
ressaltar que o termo vocação vem do latim vocare (chamar) e, na
reflexão orteguiana, significa o que atrai o sujeito para certa
direção, como manifestação de sua espontaneidade. Assim, estamos
diante da espontaneidade como valor, da fidelidade a si mesmo como
algo fundamental.
É a partir dessas considerações que devemos compreender o
significado dos valores na ética racovitalista A singularidade do
pensamento orteguiano consiste numa interpretação objetiva dos
valores.
IV – A teoria subjetiva do valor
Para entender a interpretação objetiva dos valores, faz-se
necessário explicitar duas teorias que ocupavam a cultura naqueles
dias, servindo como ponto de partida para Ortega em sua formulação
teórica.
A primeira elaboração teórica que Ortega examinou foi a teoria
psicológica do valor de Alois Meinong¹. Esse filósofo estabelece
uma interpretação subjetiva, onde o homem valoriza as coisas de
acordo com o seu sentimento de agrado ou desagrado. Nessa ótica,
eu dou valor ou prefiro esta ou aquela coisa. O que me agrada eu
valorizo positivamente e o que me desagrada negativamente. O valor
corresponde assim, aos estados psicológicos do homem.
A segunda teoria do valor que Ortega analisa é a proposta pelo
filósofo Eherenfels². Em sua formulação teórica, Eherenfels segue
a mesma linha subjetiva de Meinong. Entretanto, para ele são
valiosas as coisas que desejamos e não necessariamente aquilo que
nos agradam.
Eherenfels entende que desejamos as coisas que não possuímos, como
por exemplo, o talento que não temos, uma posição que esperamos
alcançar. Assim, as coisas que não possuímos mas almejamos têm
valor. Nesse ponto nos deparamos com a seguinte questão: só
valoramos as coisas que não temos? O filósofo esclarece que as
coisas existentes, que já alcançamos, não despertam o nosso desejo,
e assim não lhes conferimos valor. Entretanto, o que é valorado
pelo homem é a idéia de que certas coisas que possuímos, se não
existissem, as desejaríamos. Daí segue-se que o valor é ser
“desejado” e “desejável” (O. C., p.321. v. VI).
V – A crítica de Ortega às teorias subjetivas do valor
No entender de Ortega, o ponto em comum entre as duas teorias
subjetivas acima analisadas é que “para as duas o valor não é nada
positivo no objeto, mas emanação do sentimento ou desejo
subjetivo” (Idem, p.324.). Ou seja, nos dois casos o valor
corresponde aos estados psíquicos do sujeito. É em relação a esse
aspecto fundamental que Ortega constrói a sua crítica.
Segundo ele, os estados psíquicos sofrem variação de intensidade,
e, sendo assim, os valores teriam que variar da mesma forma. Ora,
quanto maior for o desejo ou o agrado, maior o valor. Entretanto,
Ortega afirma que o valor não pode sofrer essa variação, ou o
sujeito identifica um determinado valor ou não.
Para contrariar as teses anteriores, o filósofo propõe o seguinte
exemplo: quando um sujeito sofre uma ferida por salvar um amigo,
ele sente um sentimento de desagrado, de repulsão, mas valoriza
positivamente o fato de ter salvo alguém. Daí pode-se observar que
o sentimento de desagrado não corresponde ao valor negativo
proporcional.
Tendo em vista as análises acima, Ortega enfatiza que é falso
colocar os valores, assim como seu caráter positivo e negativo, em
função do agrado ou desagrado, do desejo ou da repulsão (Idem,
p.325). Para ele os valores são objetivos, estão presentes nos
objetos e não estados subjetivos.
Daí segue-se que não é o nosso desejo ou agrado quem dá valor às
coisas. O valor está presente nos objetos, independente do
sentimento que nutrimos. Sobre esse assunto esclarece José
Maurício de Carvalho, na obra Introdução ao pensamento à filosofia
da Razão Vital de Ortega y Gasset ( 2002):
“A meditação sobre a experiência dos valores é que levou Ortega a
concluir pela objetividade dos valores, objetividade que se
assemelha à obtida na matemática, Os valores não dependem,
portanto, dos caprichos da subjetividade individual, são
objetivos” (p. 362).
Entretanto, para identificar um valor presente nas coisas é
preciso fazer uma estimativa delas, ou melhor, uma avaliação das
coisas. Apesar de ser uma qualidade presente nos objetos, o valor
não pode ser identificado pela percepção imediata. Estimar para
Ortega é “ realizar uma função psíquica do real – como o ver, como
o entender – em que os valores se nos fazem patentes” (O.C., p.
330. v. VI).
Daí pode-se dizer que as coisas têm qualidades próprias que podem
ser identificadas pela percepção imediata. Por exemplo, um quadro,
ele possui determinada moldura, cores e formas especificas que são
apreendidas pelos nossos sentidos. Mas também possui qualidades
irreais, que não estão presente na sua arquitetura física, mas que
faz parte dele, que são os valores. Da mesma forma que a igualdade
de dois objetos só pode ser percebida por indivíduos capazes de
fazer uma comparação, os valores também só podem ser identificados
quando é realizada uma estimativa do objeto, ou melhor quando é
feita uma avaliação deles.
Finalmente, como esclarece Nelson Saldanha (1986), o problema dos
valores não se dissocia da cultura e da história e isto tem um
sentido específico: “o homem ocidental de hoje é distinto do que
era antes, mas seu ser atual inclui o anterior. Ou ainda, somos
outros que o homem de 1700, e somos mais” (p.15). O homem de hoje
não é mais nem feudal, nem absolutista, mas tem em si os elementos
já vividos na forma de passado. O problema do valor também se
relaciona aos desafios de um certo tempo, de uma certa geração.
VI – Considerações finais
A partir da teoria objetiva dos valores, podemos reconhecer em
Ortega uma leitura histórica dos valores. Isto é, quando Ortega
estabelece que os valores estão presentes nos objetos, e que o
homem faz uma estimativa deles, significa que cada povo e cultura,
de acordo com suas necessidades e as exigências de um certo tempo,
identificam valores que os ajudam a viver melhor.
Assim, em alguns casos, percebemos determinados objetos e não
identificamos seus valores. E, em outros ocasiões, podemos
identificar valor à esses mesmos objetos. Cada povo, vivendo uma
determinada circunstância, cria o seu perfil estimativo.
Com esta comunicação podemos indicar que a teoria objetiva do
valor contribui de forma significativa para compreender como se
estabelece a relação do homem com mundo. Além disso, faz
necessário ressaltar que o significado dos valores na ética
raciovitalista está relacionado com uma interpretação objetiva,
com a experiência moral e com a espontaneidade vital. Segundo o
filósofo, a meditação ética de nosso tempo deve enfrentar tais
questões para esclarecer o que é a vida homem.
VII – Referências bibliográficas
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________. José. Introducción a un Don Juan. Obras Completas. 2. Ed.
Tomo VI. Madrid: Alianza Editorial, 1997.
________. La rebelión de las masas. Obras Completas. 2. Ed. Tomo
IV. Madrid: Alianza Editorial, 1993.
________. Reforma del carácter, no reforma de costumbres. Obras
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________. La cuestión moral. Obras Completas. 2. Ed. Tomo X .
Madrid: Alianza Editorial, 1993.
________. Ideas y Creencias. Obras Completas. 2 . ed. Tomo V.
Madrid: Alianza Editorial, 1993.
________. Qué es Filosofia? Obras Completas. 2. Ed. Tomo nVII.
Madrid: Alianza Editorial, 1993.
CARVALHO, José Maurício. Introdução à filosofia da Razão Vital de
Ortega y Gasset. Londrina: Cefil, 2002.
________. Ortega y Gasset, um intelectualismo ainda atual. In:
Atas do Colóquio Ortega y Gasset. São João del-Rei: UFSJ, 2003.
MARÍAS, Julián. História da Filosofia. Porto: Edições Souza e
Almeida.
KUJAWSKI, Gilberto de Mello. Ortega y Gasset: a aventura da razão.
São Paulo: Moderna, 1994.
________. O valor da vida. Brasília: Letrativa, 1999.
MACEDO, Ubiratan Borges. A filosofia de Ortega y Gasset. In:
A presença da moral na cultura brasileira. Londrina: EDUEL, 2001.
________. Vida e valores na filosofia da razão vital de Ortega y
Gasset. In: Problemas e teorias da ética contemporânea. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2004.
________. Vocação e missão na filosofia de Ortega y Gasset. In:
Revista Brasileira de Filosofia. 44(217): 85-98. Jan./Mar. 2005.
SALDANHA, Nelson. Historicismo e Culturalismo. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro. Recife: Fundaspe, 1986.
ARANGUREN, José Luis L. La ética de Ortega. Madrid: Taurus, 1958.
GONZALES, Leopoldo. A gratuidade ética de Ortega Y Gasset. São
Paulo: Annablume, 2001.
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¹ Alois Meinong foi professor de filosofia em Praga. Na obra
Investicações psicológicas para uma teoria do valor (1984), desenvolve o problema geral acerca do valor.
²Chr. Von Ehrenfels, companheiro de escola filosófica de Meinong.
Sua teoria do valor encontra-se desenvolvida na obra system der
werttheorie (1898).
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