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O HOMEM MASSA E OS DESAFIOS
DA POLÍTICA NO PENSAMENTO DE ORTEGA Y GASSET Danilo Santos
Dornas** Resumo:
Neste trabalho indicaremos quais eram, na avaliação de José Ortega y
Gasset (1883-1955), os principais problemas sociais e políticos da Europa de
seu tempo: o homem massa e o individualismo exacerbado. Para ele, a solução
para esses problemas está na educação e no estabelecimento de novas bases
para uma moral social. Adicionalmente, procuraremos atualizar essa discussão
com interpretações atuais de Ortega y Gasset sobre o tema. Palavras-Chave:
Filosofia Política,
Filosofia Social, Educação. Considerações
iniciais
José Ortega y Gasset nasceu em Madri em maio de 1883. Filho de José
Ortega y Munilla, foi célebre escritor e colunista de uma revista espanhola.
O filósofo estudou Filosofia e Letras e se especializou em filosofia estética
alemã no fim do século XIX. Foi professor de Metafísica na Universidade
Central de Madri. Viveu algumas temporadas na Alemanha e na França e realizou
várias viagens à América, sobretudo Argentina (1916 e 1928), país em que
teve singular êxito como palestrante. Ortega y Gasset foi um filósofo inserido nos problemas de seu tempo e
preocupou com o destino da Espanha. O país se encontrava fragmentado,
dividido e semeado por vários problemas sociais e políticos que o impediam
de acompanhar o desenvolvimento das outras nações européias. Para enfrentar
esses problemas, o filósofo pensou as questões políticas à luz de uma
teoria da realidade, que ele denominou raciovitalismo. Essa teoria centrou a
discussão no conceito de vida experimentado na primeira pessoa. Com a frase: Eu sou eu e minha circunstância, Ortega y Gasset particulariza os
problemas de cada homem. Com a continuação desta mesma frase: se
não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim, Ortega y Gasset indica
que o homem pode mudar a sua vida e da sociedade que vive. Neste trabalho, indicaremos como, segundo o filósofo, podemos tratar os
problemas sociais e políticos para entender que o homem consegue salvar suas
circunstâncias se valendo da educação e da cultura, que são instâncias
que igualam os homens. Nesse empreendimento, nos valemos dos textos: Los
problemas nacionales y la juventud; La
ciencia y la religión como problemas políticos; La
pedagogia social como programa político; Vieja
y nueva política; A Rebelião das
Massas; El hombre y la gente; e España
Invertebrada. Esses escritos foram publicados nas Obras
Completas editadas pela Alianza Editorial de Madri. Procuramos nos valer,
na meditação que se segue, da interpretação de diversos estudiosos de
Ortega y Gasset, notadamente dos artigos editados na Revista
de Estudios Orteguianos. 1
Os problemas políticos
A
geração de Ortega y Gasset encontra uma Espanha mergulhada em problemas
sociais. Tais problemas surgiram do mal uso da razão no exame da vida social
e política. Para o filósofo, os homens de sua época deveriam utilizar a razão
e a sensibilidade para examinar os problemas sociais que impedem a Espanha de
se firmar como nação. Estes problemas sociais são originados pelo mal exercício
da participação política. Maus governantes completam a dificuldade. Primeiro,
é preciso entender o que o filósofo designa por nação. Ortega y Gasset explica que nação não é uma simples delimitação de terras, e sim o objeto
de uma virtude que acompanha cada homem. Esta virtude é o patriotismo. A nação passa a existir se os homens exercitam seu
patriotismo no país onde vivem. Faz
parte do patriotismo identificar os vícios que aparecem em uma determinada nação.
Os vícios nascem da distração dos membros dessa sociedade, distração que
permite que pessoas pouco virtuosas cheguem ao comando da nação. Essa era a
situação política da Espanha; regida por governantes não preparados, a nação
não atendia o bem-estar do povo. Ortega y Gasset conclui que o povo espanhol,
ao perder a capacidade de refletir sobre si mesmo, tornou-se motivo de
desprezo por outras nações da Europa. É
necessário esclarecer que Ortega y Gasset entende por homem desprezível
aquele que não se esforça para superar as dificuldades que se lhe apresentam
nem sequer reflete sobre suas ações. Entretanto, o homem desprezível não
é o que simplesmente cai, mas o que não consegue reerguer-se após uma
queda. O
filósofo entende que sua geração estava mal preparada política e
moralmente. Por isso, ele supõe que era necessário discutir os males da
Espanha, assim como fazem outras nações da Europa. Os males políticos que
atravessavam a Espanha se fundamentavam na má formulação do conteúdo moral
das gerações precedentes. O filósofo diz que uma geração que não se
prepara moralmente para as dificuldades que se avizinham traz conseqüências
trágicas para as que se seguem. Então, cada geração é mestra da que se
segue, o que nos sugere uma valorização dos pressupostos históricos para a
edificação de uma sociedade contemporânea, resgatando a moralidade que se
encontra desvirtuada dos assuntos políticos. Eis o que nos diz: «É
certo que a geração anterior não nos deixou de herança nenhuma virtude
moderna. Cada geração chega ao mundo com uma missão específica, com o
dever adscrito nominalmente a sua vida» (Los
problemas nacionales y la juventud. p. 15). Não
custa recordar que, para o filósofo, a moral não é constituída de fórmulas
abstratas. Isso porque a moralidade deve aparecer como um desafio vital ou uma
tarefa a ser cumprida pelos homens. A resposta ao desafio faz com que os indivíduos
mereçam o título de entes sociais. E, para agir moralmente, o homem deve se
pautar em normas que foram desenvolvidas pelas gerações anteriores. A
realidade histórica de cada geração consiste em ser o ponto de interseção
da geração que lhe antecedeu e da outra que a seguirá. Essa dupla função
é importante porque o filósofo coloca a educação como medula da história
e regente da moral do homem: «Cada
qual faz o que é capaz de fazer, mas sua capacidade depende completamente de
sua preparação: isto nos obriga a manter desperta a consciência de nossa
solidariedade com as forças e até com os vícios do passado» (idem.
p. 16). Desse
modo, Ortega y Gasset entende que, antes de mudar o sistema político, se deve
entender que falta ao povo espanhol entusiasmo, energia, pureza, sensibilidade
para as instâncias morais. Essas instâncias morais devem ser alteradas. No
entanto, a geração em que Ortega y Gasset viveu não herdou virtudes nem
ideais, herdou unicamente falta de entusiasmo para enfrentar os problemas. Os
homens estão destinados a viverem numa nação com características
particulares e regionais, isso é o que tipifica e diferencia as nações.
Essa característica particular e regional de uma nação significa um modo
que antecede a desintegração por não considerar as qualidades do mundo ao
redor. Os
líderes políticos de cada povo devem ser sensíveis à vontade de seus cidadãos
para que essa regionalização se extinga impedindo a formulação dos
flancos, grupos particulares, para que a necessidade de todos sejam
perseguidas por meio de uma discussão entre os homens. Um político que cria
leis sem um debate entre os cidadãos não educa o povo, prejudica a nação e
dificulta que ela se forme integralmente. Ortega
y Gasset entende que resgatar a moral é tarefa da metafísica e não da
sociologia, mas que tem implicação na política. Isso porque deve salvar uma
virtude comum aos cidadãos da Espanha. O filósofo grego Platão (427-347 a.
C.), em sua República, pretendia
que um rei-filósofo administrasse com sucesso a polis.
Ortega y Gasset não pede tanto ao se referir à administração do Estado.
Para ele, o governante precisa ser um homem preparado para enfrentar as
dificuldades da administração pública. Governantes cultos são importantes
porque eles identificam a alma de
seu Estado e assim governam com mais eficácia. Ortega y Gasset diz que na
Espanha, por exemplo, a alma identificada é a valentia e por isso há tantas
guerras na história de seu povo: «Na
Espanha só temos a tradição de valentia: por um gesto de valentia vendemos
a alma nacional ao diabo» (idem. p.
21). Os
problemas políticos são solucionados com o exercício da liberdade de cada
ser humano. Para os atenienses, explica o filósofo, liberdade significava
viver como quisessem, atendendo à busca de felicidade na polis. A liberdade, para Ortega y Gasset, não pode ser mais
entendida como entre os gregos; ele a vê como respeito ao indivíduo e ao
Estado. Ortega y Gasset completa que a liberdade de consciência só pode ser
desenvolvida numa organização política forte que eduque o povo espanhol. E
consciência significa sensibilidade, conhecimento dos deveres morais. Como
educar o povo? Ortega y Gasset afirma que é promovendo a paz entre todos os
homens. E a paz só é conseguida por um povo que possua uma alma culta: «Paz
e cultura tem um valor recíproco em meu vocabulário: paz é a postura da
alma culta, e cultura é cultivo» (idem. p.
23). Nesse
sentido, o pensador espanhol se mostra contrário às revoluções como estratégia
para introduzir mudanças políticas, entendendo que elas são constituídas
por uma sucessão de crimes. Assim, impedem o exercício da paz entre os
homens e não podem conduzir uma nação à liberdade por não respeitarem a
individualidade de cada um. As revoluções mostram que quanto mais injustiças
existirem mais os homens serão culpados em não refletir sobre o próprio
compromisso moral que serve de guia para a vida social. Portanto, Ortega y
Gasset entende que é exigência moral evitar as ações dos revolucionários,
mas deve-se entender seu sentido porque elas só surgem como tentativas de
solucionar os problemas encontrados em uma sociedade. 2
O homem massa e os problemas gerados pela política
As teses sociais e políticas
de Ortega y Gasset são uma resposta aos inúmeros problemas sociais
provocados pelo individualismo exagerado. O autor explica em seus textos que
os problemas sociais e políticos gerados na Europa são causados pela
superlotação dos lugares públicos, que é o que ele chama de massa
social. O individualismo exagerado culmina na sociedade de massa. O que o preocupa é o homem não
se comprometer com sua vocação ou missão. O homem massa, como ele o trata,
é o indivíduo que não atribui a si um valor e, certamente, não se angustia
com isso, sente-se bem ao ser idêntico aos demais indivíduos. Essa análise
do filósofo destaca a preocupação em melhorar a qualidade de vida de cada
homem para melhor identificar no corpo da nação uma coluna
vertebral que une os homens. Dessa forma, o problema
social evidente é o aglomerado de homens sem a preocupação de discutir os
rumos políticos que devem seguir sua nação, e desorganizados na sociedade,
distribuídos em blocos individuais. Esse distanciamento dos homens nos
assuntos políticos consolidou lideranças conduzidas pela demagogia e pela
ignorância. Esse acontecimento é o que ele chama de hiperdemocracia
das massas cuja lei é: quem não for como todo mundo, quem não pensar
como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. Essa hiperdemocracia é a
imposição das massas, quanto aos seus gostos, que muitas vezes estão
vinculadas a pressões materiais e ao desejo de poder sem o reconhecimento de
leis, sem se preocuparem com a vida. O conceito de massa explica as
dificuldades da sociedade contemporânea em se firmar como sociedade. Um dos sintomas mais
evidentes da hiperdemocracia se instaura quando a massa resolve fazer justiça.
Ela recorre ao linchamento sem o reconhecimento das leis que garantam a paz.
Ortega y Gasset verifica que quando as massas triunfam, reina também a violência
como doutrina e única razão. Para controlar a violência das massas, nasce o
Estado. O homem massa não se
preocupa com sua civilização, sua cultura, e sua educação, que são os
caminhos que ele tem para sair dessa condição de vulgaridade. O resultado
dessa situação é fatal para a vida de cada ser humano porque os homens
passam a viver em função do Estado, tornando-se máquinas estatais. Após
certo tempo, trabalhando como máquinas, enferrujam. Essa é a razão dos
governos totalitários que se espalharam ao longo do século XX. Os governos totalitários,
comunistas e socialistas, e também a sociedade de consumo são potenciais
fabricantes de homens massa porque impedem o homem de se valer de sua vida
singular para agir. Por isso, é perigoso se render a esses projetos políticos.
Nessas formas políticas, o homem não tem nenhum valor próprio, não tem
particularidade que o distinga dos demais homens. Está agarrado em suas
circunstâncias de “massa” e a ela não se esforça para sair. Ortega y Gasset postula uma
rebelião individual contra os desejos do homem massa em suas obras sobre política.
Ou seja, defende a revolta pessoal contra a consciência coletiva para manter
o homem numa posição seleta pela sua própria capacidade de trabalhar,
construir e se esforçar cada vez mais para melhorar sua vida. Ortega
y Gasset apresenta uma nova forma de encarar o mundo com a experiência
individual identificada por raciovitalismo. Ele é um defensor do valor próprio
de cada ser humano, enquanto, o homem massa é o inimigo consciente de sua
singularidade. 3
A preocupação com o social
A
primeira coisa a se fazer para melhorar a vida na Espanha, na compreensão de
Ortega y Gasset, é socializar os homens fazendo com que saiam da condição
de homens massa. Preocupar-se com a política é ocupar-se com a vida social,
o que só pode ser conseguido pelo humanismo e pela cultura. Assim,
preocupar-se com o social é cultura, construção que, por sua vez, promove a
paz social pelo princípio de amizade. Logo, o socialismo é construtor da
paz, afirma o filósofo. Ortega
y Gasset diz que os socialistas não devem ser inimigos de seus inimigos, mas
amigos de seus amigos. Assim, eles devem se agrupar, comungar, comunicar e
socializar todos os homens: antes de mais nada, o socialismo é um princípio
de amizade aos homens, uma forma de humanismo, que o filósofo julga necessário
existir nas relações sociais. Como naquele momento socialismo estava
identificado com marxismo, o filósofo procura explicar o que entende por
socialismo, uma vez que não partilhava das teses marxistas. Ortega
y Gasset explica que o marxismo consiste em solucionar toda variação histórica
como uma variação de relações econômicas: cada época se caracteriza por
um tipo de produção, por uma maneira especial de obter o produto, de decidir
a coisa econômica como meio para a vida. «O
que interessava a Karl Marx era determinar que tudo de mal que compõe a história
social humana, religião, política, moral são sempre formas de realidade
econômica, que não tem sentido sem referir ao econômico» (La
ciencia y la religión como problemas políticos. p.
32). A
economia é entendida, segundo Karl Marx (1818-1883), como matéria para a
vida. Ortega y Gasset não concorda com esse entendimento porque não admite
reduzir a vida humana às relações econômicas. Para o filósofo espanhol,
sempre haverá o capitalismo porque sempre existirão instrumentos de produção.
E, ainda completa, o socialismo nasceu com Platão quando afirmou que os cidadãos
não devem se empenhar em uma perpétua luta entre ricos e pobres na polis.
Erradicar a luta de classes como meio para socializar a produção é proposta
do marxismo, mas essa forma não promove a paz e a liberdade entre os homens.
Os acontecimentos históricos dos últimos anos confirmam a avaliação do filósofo. O
socialismo tal como ele o propõe eleva o nível cultural das sociedades. E
cultura, para Ortega y Gasset, não é uma palavra vaga, sem sentido. Cultura
é o cultivo científico do entendimento de cada homem, de sua moralidade e de
seu sentimento. Por isso, a cultura é o verdadeiro poder espiritual para
reconstruir a sociedade onde todos os homens podem participar juntos. Homem,
em seu sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que
todos devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo
garante a paz entre os homens porque todos devem trabalhar para o benefício
de todos, porque só assim existirá uma comunidade firme. 4
A pedagogia social como solução para os problemas sociais e políticos
Nossa
consciência necessita de um motor para se colocar em movimento. Ortega y
Gasset diz que este motor é a educação. Por educação, o filósofo entende
a transformação de um homem imperfeito em indivíduo com irradiações
virtuosas. A pedagogia, enquanto ciência, trata de modificar o caráter, tem
por objetivo integrar os indivíduos em uma comunidade. Desse modo, a
pedagogia deve começar por um ideal moral. O
homem, segundo Ortega y Gasset, não é apenas um indivíduo biológico. O
homem se difere de um cavalo por saber determinar o que é bom para si e para
sua comunidade. Então, a pedagogia não significa um adestramento de homens,
e sim de uma atividade educadora que insere o homem singular, consciente de
sua situação, em um grupo social. É o que afirma o filósofo: «O
cavalo é uma coisa física, é todo uma exterioridade, vive só uma vida
espacial. Agora bem, o problema da pedagogia não é educar o homem exterior, o
anthropos, e sim o homem interior, o homem que pensa, sente e quer» (La
pedagogia social como programa político. p. 51). As
características da ciência, da moral e da arte são que seus conteúdos
pertencem ao patrimônio comum, apesar dos amores, ódios e caprichos serem
subjetivos. Portanto, existe um eu
individual, que sente tais emoções e um eu
comunitário, que pensa algo que é comum a todos. Para que exista uma
comunidade entre os homens é necessário que exista uma linguagem comum.
Ortega y Gasset completa que sem linguagem não há pensamento. «O
pensar é um monólogo e o monólogo não é originário, e sim a imitação
de um diálogo, um diálogo de uma só dimensão» (idem p. 52). Ortega
y Gasset explica que sem o uso da linguagem o espírito não chega a possuir
conteúdo para a interação. Um indivíduo que extingue sua comunicabilidade
com os outros se mantém solitário
e se transforma em um átomo social. Todo
individualismo é mitológico e anticientífico. Assim, Ortega y Gasset
considera a pedagogia individual um erro e projeto inútil. Platão, na sua
República, que é preciso primeiramente educar a polis
e depois o indivíduo. Então, a pedagogia platônica privilegia a dimensão
social. Ortega y Gasset explica que a escola só é um espaço momentâneo e
que a verdadeira educação se adquire em casa, nas praças e estabelecimentos
públicos; enfim, onde as relações humanas sejam mais intensas. A pedagogia
é entendida pelo filósofo como a ciência que transforma as sociedades, pela
moralidade, em um reunião de pessoas com ideais. Antes,
essa transformação do indivíduo era entendida como produto da política,
explica o pensador. Mas não se pode fazer política sem antes passar por uma
pedagogia social. O social é a combinação dos esforços individuais para
realizar uma obra comum. Um grupo de homens, ao trabalharem em uma obra comum,
recebem em seus corações, por reflexão, a unidade dessa obra e, assim,
nasce o elo da unanimidade. Ortega y Gasset conclui que pela cooperação se
forma uma sociedade unida. «Socializar
o homem é fazer do trabalho uma magnífica tarefa humana, pela cultura, onde
a cultura abarca tudo, desde cavar a terra até compor versos» (idem.
p. 58). Não
pode participar bem da sociedade quem não trabalha. Ortega y Gasset entende
que pela consciência do trabalho não pode haver lutas entre ricos e pobres
na nação. Erradicar a luta de classes como meio de socializar a produção
é proposta do marxismo e não promove a paz e a liberdade entre os homens. Ao
contrário, é onde a luta de classes encontra meios políticos de expressão
que a sociedade consegue os melhores benefícios. O
verdadeiro poder espiritual para reconstruir a sociedade onde todos os homens
podem participar juntos e reconstruir a moralidade do homem. Homem, em seu
sentido soberano, é o que pensa e constrói. Ortega y Gasset diz que todos
devem se comportar moralmente para a paz ser edificada. O socialismo garante a
paz entre os homens porque todos com seu trabalho contribuem para o destino da
comunidade, só assim o futuro poderá ser mirado com esperança. Considerações
finais
Neste trabalho examinamos as teses políticas e sociais de Ortega y
Gasset. Vimos os problemas causados pela influência de uma sociedade de massa
no destino dos gruos humanos. Tal influência deve ser alterada para não se
transformar a nação numa hiperdemocracia. A hiperdemocracia é o exercício
das massas e imposição de seus costumes ao restante da sociedade com todas
as implicações negativas daí decorrentes. Entretanto, não concordamos com
interpretações que indicam que esta crítica do filósofo ao excesso da
democracia represente uma posição antidemocrática. Pensamos que ele espera
superar o democratismo de inspiração rousseniana (Cf. Carvalho, 2001. p.
411-415), ou melhor, conforme diz Maria Teresa Lopez de la Vieja, a crítica
à hiperdemocracia é uma tentativa de verificar os abusos da imposição e os
inconvenientes do domínio do homem massa ao longo do século XX.
Um dos modos de evitar a hiperdemocracia é permitir que a educação
seja o exemplar fio condutor para os homens e assim privilegiar as decisões
políticas de forma exemplar, valorizando o conhecimento e a competência.
Neste ponto, Ortega y Gasset dialoga com Aristóteles (367–322
a. C.), que defende em sua obra Ética
a Nicômaco que devemos deliberar retamente as decisões com a devida prudência.
Aquele que se guiar nestes moldes será sempre um modelo a ser seguido. Ao
considerarmos o papel da educação na vida social, não encontramos em outro
intérprete de Ortega y Gasset uma abordagem mais apurada. Aqui, nos
conduzimos para a solução que o autor sugeriu em alguns de seus ensaios. Há leitores de Ortega y
Gasset identificam a preocupação com os homens puros como uma forma de
aristocracia. Tais intérpretes não observam, contudo, que o filósofo
valoriza a vida de todos de modo igual. E, para que haja uma vida política
sem deteriorar os valores de cada pessoa, teria a educação que ter uma forma
de unificar, socializar os homens num princípio de amizade; essa é a real
intenção do filósofo que nada revela de elitista. A posição elitista de
Ortega y Gasset se restringe em aspectos psicológicos e antropológicos que,
conforme nos indicou Maria Teresa Lopez de
la Vieja, significa colocar a inteligência para guiar a atividade utilitária.
Trata-se de um convite ético a ser bom, mas não de um governo para poucos. Não
identificamos um interesse do filósofo de discutir questões como eleições,
partidos e formas de governo, e sim, estabelecer bases de uma “pedagogia política”.
Essa pedagogia seria o modo para regular os conflitos de interesses e os
valores. Refletir, formar opinião e animar a vida pública através do meio
cultural não são tarefas de uma elite política, e sim de uma elite
cultural. São poucos os homens que contam com a capacidade de esforço
suficiente para transcender a vida comum. O instrumento com que conta cada
homem para se orientar em sua vida não é outro que a razão, uma razão
voltada para a vida. Bibliografia CARVALHO, José
Maurício de. Lições de Ortega sobre a vida humana. Ética
e Filosofia Política. Juiz de
Fora: UFJF, 1996. v. 1. ______. Contribuição
Contemporânea à História a Filosofia Brasileira. Londrina: EDUEL, 2001. LAVEDÁN, Maria
Isabel Ferreiro. La docilidad de las masas en la teoria social de Ortega y
Gasset. Revista de Estudios Orteguianos.
v.2 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset,
2001. ORTEGA Y
GASSET, José. Los problemas nacionales y la juventud. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990. ______. La
ciencia y la religión como problemas políticos. Discursos Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990. ______. La
pedagogia social como programa político. Discursos
Políticos. Madrid: Alianza Editorial, 1990. ______. Vieja y
nueva política. Discursos Políticos.
Madrid: Alianza Editorial, 1990. ______. A
Rebelião das Massas. Tradução Marylene Pinto Michael. São Paulo:
Martins Fontes, 1987. ______. La
rebelión de las masas. Obras Completas.
2. ed. Tomo IV. Madrid: Alianza Editorial, 1993. ______. El
hombre y la gente. Obras Completas.
2. ed. Tomo VII. Madrid: Alianza Editorial, 1993. ______. España
Invertebrada. Madrid: Revista de Occidente en Alianza Editorial, 2000. VIEJA, Maria Teresa López de la. Democracia y masas en Ortega y Gasset. Revista de Estudios Orteguianos. v.1 Madrid: Fundación José Ortega y Gasset, 2000. * Trabalho realizado como parte das atividades do PIBC/CNPq, anos 2001/2002, sob a orientação do Prof. Dr. José Maurício de Carvalho. Apresentado na Universidade de São Paulo, USP, em abril de 2002. |
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